quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Experiência farmacológica







A porra do sol ainda nascia pela cortina e já tava se aliando ao resto de álcool que ainda existia no sangue, pra formar o ressacão. Sentiu o hálito digno de quem tinha mastigado um toco de cigarro a noite toda e não tava nem a fim de abrir o olho pra começar o dia. Sabia que o trabalho não ia ter nada de muito diferente a não ser que caísse a porra de um avião que aumentasse os defuntos pra ele bater o carimbo de se fodeu no fim do expediente.



Pensou em levantar quando ouviu um barulho estranho pra caralho que não era habitual dentro do cafofo pseudo-mofado.
“Uhhhhhhhhhhhhh”

Pulou da cama na mesma velocidade que o diabo foge da cruz e viu aquele monte de lençol embolado que se mexia sozinho e ainda gemia. Em pé, ali no canto da kit, esperava os neurônios entrarem em sincronia com a realidade, porque naquele momento estavam boiando naquela cena surreal, com trilha sonora do tempo das cavernas.Começou a respirar de novo, olhou praquele bando de pano deitado na cama e pensou se aquilo só poderia ser algum bicho bem grande que tinha entrado debaixo do lençol durante a noite. Olhou a garrafa de vinho da noite passada e já escalou o gargalo pra rachar o crânio do ser gemedor que tinha invadido o território sagrado. Foi andando para perto, enfiou a mão no lençol e puxou de uma vez o pano, quando viu aquele ser de outro planeta. A mina olhou pro Paulão, deu um sorriso meio amarelo e deu uma sacaneada.
“Acordou, Belo adormecido?”

Que porra que aquela mulher tava fazendo na cama, não fazia a mínima idéia. Olhou em volta e viu um vestido jogado, mas só tinha uma taça de vinho no chão. Tava sem camisa, mas de calça jeans. Lembrava da luta de vale tudo às 3h da manhã na televisão, mas tinha certeza que não tinha assistido ao lado de uma Deusa daquela. Só podia ser flashback de alguma droga muito pesada. Mas a porra do flashback falava. Então tava mais pra esquizofrenia aguda. Era só o que faltava. Começar a ver gente que não existe e a ouvir vozes.
“Mina, não leva a mal a pergunta não, mas que porra você ta fazendo aí deitada de sutiã e calcinha?”

E ela deu uma risada mixada com outro gemido.
“Não me faz rir, que dói mais, porra!.”


Como assim, dói? Agora fodeu tudo. Além de ter uma mulher deitada na cama de cacinha e sutiã, que ele não se lembrava de como ela tinha parado ali, a bicha ainda tinha algum tipo de dor que fazia urrar na delicadeza de um urso polar. A próxima surpresa ia ser uma poça de sangue no colchão, com certeza.
“Caralho mina, o que você tem? Que porra de dor é essa e porque diabo você ta na minha cama?”

Ela foi se desembrulhando dos lençóis que ainda restavam e saindo da posição fetal que a tinha deixado do tamanho de uma trouxa de roupa. Coxão, barriguinha, peitão. Tudo foi surgindo e Paulão não via o sangue, a seringa espetada no braço, o pulso cortado, nada. Nenhuma desgraça aparente, como de costume.
“Porra, velho. O que tinha no seu vinho? Você me ligou ontem e me chamou pra vir aqui beber com você. Não lembra que eu te dei meu telefone no boteco há umas 3 semanas atrás? Mas quando eu cheguei você tava chapado e como a porta tava aberta entrei e fiquei. Tava muito tarde já.”


Não! Só podia ser alguma sacanagem de alguém. Tinha uma gostosa na cama, que concordou em ir pra casa dele sabe-se lá que horas e ele não tinha comido? Com certeza era sacanagem.
“Uhhhhhhhhhhhhhhhhhh”


Aquela porra já tava começando a assustar. E Paulão resolveu soltar a garrafa que iria chapuletar na fuça do ser inanimado que estava debaixo das cobertas e foi acudir o corpão gemedor. Porque a cara dela não tava nenhum pouco feliz.
“Cara, você quer que eu ligue pra alguém? Aconteceu alguma coisa? Você tem mais algum tempo de vida?”

“Porra Paulão, não me faz rir, filho da puta. Aconteceu uma coisa sim. Você não me comeu e eu fiquei menstruada. E agora to morrendo de cólica.”

“Mina, me deixa entender essa porra, porque ainda to meio bêbado. Você gostosa desse jeito, veio até minha casa pra me dar, eu não te comi e agora você ta com cólica? Se toda mulher que eu não comesse ficasse com cólica os caras que vendem remédio iam me contratar como garoto propaganda. E por falar em remédio, porque você não toma um?”

Depois de algumas gargalhadas com soluços de dor e um mix de sorriso com cara de sofrimento medieval, ela conseguiu respirar e continuou conversando.
“Velho, esquece os detalhes. Só tô com uma puta cólica que não sinto há anos. Parece que tomei uma surra. Você tem algum remédio aí, porque eu não tenho nada.”

“O único remédio que tenho nessa joça é pra ressaca, baby. Serve?”

“Não, Paulão. Esse não adianta não.”

Ela ficou olhando pra ele, e por algum momento rolou uma hipnose. Depois de um silêncio de alguns segundos, Paulão não tava entendendo mais porra nenhuma. A única coisa que entendia bem era de ressaca. Pra isso tinha milhões de receitas, mas a que mais gostava era a de beber mais pra rebater. Mas pra cólica? Só chamando a ambulância.
 “Mas e aí, cara. O que vai ser? Você fica aí gemendo e eu vou trabalhar? Você vai sair comigo? A gente começa a se pegar e conserta o desencontro de ontem? Ou eu chamo a ambulância?”

“Você podia era ir na farmácia e comprar um remedinho pra mim!”

Nesse momento Paulão tinha certeza que alguma coisa tinha de errado na vida dele. Devia ser algum alinhamento astrológico, o apocalipse, carma de outras vidas, mas ainda acreditava mais na possibilidade de ser sacanagem de alguém. Parou pra analisar a cena. Uma mina, que ele não tinha comido, o acordou com barulho, e mandou ir na farmácia? Será que tinha batido a cabeça e esqueceu que tava casado com alguém? Puta que pariu.
“Mina, você quer que eu vá na farmácia comprar remédio pra você?”

“Remédio e absorvente!”, ela completou já morrendo de rir.

Agora fodeu de vez. A cena de entrar na farmácia e pedir um Modess e ser visto por qualquer amigo, vizinho, puta, mendigo, vira-lata, motorista de ônibus que sabia quem ele era podia causar certos problemas na vida dele. Ia falar pra mina que ela podia ficar ali quietinha enrolada nos panos porque ir na farmácia era intimidade demais. Mas ela deu de novo aquela porra de olhar. Não sabia o que era aquilo, mas funcionava bem pra caralho. Acabou analisando a situação e viu que se fosse na farmácia e fizesse o favor pra mocinha não ia fazer com que ela o odiasse o resto da vida e ainda podia render uma trepada futura.
“Qual remédio você quer?”


“Não sei, nunca tomo isso, tem tempo que não rola isso comigo.”

Tava começando a ficar complicado. Como é que ia chegar na farmácia sem o nome do remédio. Mas se tratando de farmácia, era só pedir o remédio para a chaga da Deusa-contorcionista que ia dar tudo certo. Desceu as escadas correndo para não se atrasar pro trabalho e atravessou a rua pra chegar na farmácia. Como era cedo, não tinha muita gente. Então não tinha ia ter maiores problemas com o carma periódico feminino que tinha caído no seu colo. Chegou no balcão e viu aquela mocinha que mais parecia um boneco de Playmobil atendendo e mandou ver.
“Oi, eu queria um remédio pra cólica, tem como você pegar um rapidinho aí pra mim?”

“Senhor, qual remédio o senhor quer?”

“Qualquer um. Um que seja pra cólica. Coisa de mulher, você sabe, né?

“Senhor, eu não posso indicar remédio. O senhor tem que saber qual o medicamento precisa.”


Não ia ser tão simples ajudar a beldade dolorida.
“Moça, olha bem pra minha cara. Você realmente acha que eu sei que porra de remédio serve pra cólica? Você acha que já fiquei menstruado alguma vez? O único sangue que sai daqui é quando alguém soca minha cara num boteco sujo desses por aí.”

“Senhor, preciso saber qual o medicamento. Eu não posso indicar porque a reação é diferente em cada pessoa.

Coçou a cabeça, pensou em enfiar goela abaixo da atendente aquele vibrador de massagem que estava a venda em cima do balcão, pra ela saber o que é uma reação diferente. Olhou pros lados e teve a idéia de perguntar pra qualquer mulher que estava por ali sobre o tal remédio milagroso. Mas não teve coragem. Pegou o telefone, pensou em ligar pra Sabrina. Mas nunca mais ia ter paz na vida se ela soubesse que estava na farmácia comprando remedinho pra uma mina. Ia ser muito sacaneado, então resolveu ir pra guerra e encarar pessoas estranhas.
“Oi moça, tudo bem? Tô precisando de uma força. Tenho que comprar um remédio pra cólica de mulher mas não sei o que comprar, qual você usa?

“Meu filho, na minha época a gente usava um chazinho de uma planta que nem lembro mais o nome, mas remédio mesmo eu não sei. Tem tempo que não preciso disso. Mas a plantinha é boa você pode ir até lá na feira na barraca da dona Ziza que ela tem um monte de ervas e plantas medicinais boas que eu uso pra todo o tipo de coisa porque eu tenho artrite e também tenho problema de pressão alta que piora o diabetes mas eu consigo controlar que é uma beleza com aqueles chazinhos das plantinhas da Ziza porque a gente é amiga há mais de 20 anos e o filho dela que também é bonitão assim igual você tambpem vende numa outra barraca lá na feira mas ele vende aquelas coisas de computador que o pessoal compra lá no Paraguai porque é mais barato mas mesmo assim é muito perigoso porque anda tendo muito assalto a Ziza me contou porque esse mundo ta ficando uma coisa de louco porque quando eu era mais jovem...”

“Tia, tia. Respira, senão a senhora vai ter um treco. E eu já tenho que cuidar de uma mulher com cólica. Não vai me dar um enfarto pra cuidar também.”


Olhou em volta, e procurou alguém com menos de 80 anos que não oferecesse perigo e que conseguisse falar de um assunto só sem fazer referência à Santa Ceia. E abordou uma mocinha que estava passando por perto. Ela já tava entregando a carteira pra ele quando fez a mesma pergunta. A mocinha aliviada por não ser um assaltante respondeu que usava um tal de Ponstan. Finalmente a porra do nome tinha surgido e ia poder levar o remédio pro corpo que ainda respirava na sua cama. Voltou na farmácia com a boca cheia. E ficou meio tenso porque o balcão já estava com mais gente do que antes. O perigo de encontrar alguém conhecido aumentava a cada momento.
“Mocinha, me dá uma caixa de Ponstan e um pacote de Modess.”

“Senhor, Ponstin está em falta e nós não vendemos absorvente. Pode comprar no supermercado”

Que porra de farmácia não vende coisas de farmácia? Modess no supermercado parecia algo meio surreal demais. E não ter a porra do remédio não estava nos planos de fazer uma ação rápida de emergência. Saiu correndo pro mercado, foi procurar o colchão íntimo para mocinhas íntimas deitadas no colchão. Viu aquela parede de absorventes na prateleira. Com abas, interno, noturno, mini, mega, super, médio, slim, ultra seco, com gel, com flocos. Parecia uma sorveteria pra bucetas. Não tinha a mínima idéia do que comprar até porque não conhecia as medidas, nem formato ideal para encaixar no meio das pernas da beldade à bolonhesa. Pegou um que já tinha visto na casa da Sabrina que devia servir. E também já tinha visto o comercial dele na televisão, então esse devia ser famoso. Pagou o bagulho e voltou na farmácia. Meteu a mão no balcão e olhou pro projeto de atendente.
“Seguinte, moça. Você queria que eu te desse a porra do nome do remédio, eu dei. Você não tem o bagulho. Agora se vira pra me arrumar um que sirva pra mesma coisa.”


Com os olhos estatelados, a pequena japinha farmacêutica se viu diante de um probleminha. Ou ela falava qual era o remédio ou quem ia precisar de remédio pra dores intensas era ela.
“O senhor quer Atroveran ou Buscopan?”

“Você não tá entendendo. Eu não quero nada, só quero sair dessa merda de farmácia. Me dá o mais forte e o que funciona melhor e rápido.”

Pegou tudo, disfarçou tudo no saco do mercado pra não dar bandeira com os vizinhos e foi pra casa. A hora já tava passando e sabia que ia chegar atrasado no trabalho e que já ia ter defunto esperando pra ser liberado pra comer grama pela raiz. Entrou em casa correndo e viu aquela silhueta de bunda coberta. A cama estava recheada. Se sentiu como um diabético olhando a porra de uma torta de chocolate. Uma porque a mina tava dormindo e com dor e outra porque tava atrasado pra caralho já. Colocou o remédio e o Modess no travesseiro e saiu. Enquanto andava pela rua, indo pro metrô pensou em tudo e viu que se tratando dele, aquilo devia ter sido o mais próximo do romantismo que pôde chegar. Não era uma rosa, mas tinha certeza que ia agradar uma mulher quando ela acordasse. Acendeu o Marlborão matinal e pensou se ela ainda estaria lá quando ele voltasse. Claro que não.

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