
Mensagem postada aos colegas de Faculdade......
Pessoas e não pessoas.
Esse email deve ser um pouco longo. Não tem nada a ver com a festa ou com encontros, mas com devaneios meus do meio da madrugada que gostaria de dividir com alguém, depois das duas Neosaldinas e algum outro treco pra enxaqueca (aquilo tem cafeína e não consigo dormir). Então, sinto muito. Vou começar a escrever.
Como eu não tô fazendo nada agora de madrugada.... queria perguntar o que vocês acharam da decisão do Supremo em "ripar" a necessidade de diploma de jornalista para exercer a profissão....???
Eu, na boa, e no alto da falta de debate com qualquer outro ser humano, nos meus 40m², acho que é muito legal pra informação de um modo geral. É claro que sempre haverá necessidade de gente técnica, com academia para organizar as coisas. Mas o que eu realmente não entendi foi a comoção geral e inflamada do tipo: estão tirando o meu diploma, estão acabando com a profissão, isso é um absurdo, etc e tal. Na boa, gente. Será que eu que ando viajando demais, tomando muito suco de soja e tô achando isso legal porque abre mais espaço para que mais pessoas possam contribuir com informação e com experiência de vida na comunicação?
Assim. Deixa tentar explicar. Não sei se alguém gosta da Revista Trip. Eu amo de paixão, só não gosto muito daquelas meninas que saem semi-nuas. Mas fazer o quê?.. hehe... Voltando ao foco. A Trip é uma revista muito, mas muito diversificada. De ensaios sensuais a matérias com Sadhus indianos, tem de tudo. Acompanho há anos cada edição e me surpreendi muito quando há sei lá quanto tempo o Luiz Mendes começou a escrever a sua coluna.
Momento da Deixa para vocês perguntarem: Quem diabos é Luiz Mendes?.....
TEMPO PARA PROCURAR NO GOOGLE
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Enfim, o Luiz é um cara que pegou 30 anos de cana, cumpriu sei lá quantos e saiu da beirada do inferno de volta pras ruas. Mas diferente de como a gente está acostumado a ver todo dia, o cara saiu empregado como colunista da Trip. Melhor. Ele antes de sair já escrevia pra revista. E diga-se de passagem, muito bem.
Tá bom. Eu sei que parece história de filme do Arriaga, mas é verdade. O cara começou a ler na cadeia e passou 20 e tantos anos lendo e se transformando, enquanto o tempo criava rugas na cara do latrocida-cult. Mas olha só: será que tô me fazendo entender? Qual o problema se uma pessoa que não é jornalista poder contribuir com todos nós e contar suas experiências, seu modo de ver a vida, seu jeito de escrever. Sim, ele não tem padrão. Não tem técnica jornalística. Mas e daí? É informação, é reflexão. Ou será que não é por aí? Será que é melhor a gente mandar o Caco Barcellos contar pra gente o que rola em Bangú ou assistir Carandirú? Creio que não. A mensagem não vem igual, não tem "punch". É como ir pra um show do Sepultura e ouvir Bon Jovi. Tudo é rock, mas a pegada é bem diferente.
Podia falar e meter o malho no formato do jornalismo hoje. Do hard new mesmo. Aquel formato boa noite, matéria, off, sonora, ouve um lado, ouve outro lado, passagem, boa noite, até amanhã. Alguém vai discordar que isso é chato pra cacete? Acho que não. Ando fazendo isso pros gringos e vou te contar. É muito chato. Mas o problema é que o foco não é esse. Bem, eu acho que não é. Imagino que até possa existir uma mudança no futuro por conta de novas idéias que poderão surgir. Mas acho que tá consolidado demais pra mudar. O que é bacana é a possibilidade que outras coisas sejam criadas, formas sejam resgatadas. Coisas bacanas como a pesquisa a fundo, a vivência antes de colocar alguma coisa no papel. Hunter Thompson, Kerouac (em homenagem ao Manoel). Tá bom! Não precisa ser tão Gonzo, mas acho importante essa vontade de enfiar a cabeça no balde pra ver quanto tempo dá pra ficar sem respirar, como esses caras tinham, do que ouvir de alguém que fez isso e depois sair contando pra todo mundo.
Então. Não consigo ver problema nessa abertura de possibilidades de que pessoas diversas sejam parte ativa numa história, que possam falar do que sabem com propriedade, dividir o que viram, o que sofreram, enfim: informar. A parte da técnica, da forma, vai sempre ficar a cargo de jornalistas sim. Editores, chefes de redação e repórteres nunca serão dispensáveis, pois existe um sistema sólido que necessita de toda essa organização editorial e que é importante pra caramba para informar o povo. Mas não dá pra limitar a isso, né?
Que mal tem se eu quiser escrever uma matéria, aliás, um texto sobre o Haiti? Eu não sou repórter. Não sou jornalista. Mas botei meu rabo na reta por 15 dias lá no paraíso da Malária pra filmar um documentário. Será que não seria legal contar, em uma oportunidade hipotética, que andar dentro de um blindado de madrugada com colete à prova de bala e capacete não é nada legal? E falar que os militares brasileiros, aqueles torturadores e algozes do Caetano do Chico e do Gil, são pessoas simplesmente fantásticas que estão fazendo um trabalho estupendo.... (estupendo??????.....intelectual demais pra mim)...... um trabalho DO CARALHO lá com o povo haitiano, principalmente com as crianças. Quem sabia que não se dá um tiro no Haiti há mais de um ano? E ainda bem que permaneceu assim enquanto eu estava lá, diga-se de passagem.
Então, vejo a bagaça (tem que ter uma giriazinha pra quebrar a seriedade) da seguinte forma: podíamos nos preocupar muito menos com a forma, com a técnica e começar a ver a informação de outra perspectiva. Não olhar apenas para o dia a dia. Ninguém quer sentar na cadeira do William Bonner. Não vão colocar o Peréio para definir editorial, para apurar matérias, noticiar fatos. Isso é pra gente que sabe, que estudou como fazer isso da melhor forma. Mas e se um caderno especial sobre cinema e teatro undergroung fosse editado? Será que o cara não seria a melhor opção do que a editora que nunca colocou o pé na Vila Madalena ou no Conic? O jornalismo é mais que o jornalista. Jornalismo deve ser mais comprometido com a informação, com a história. E menos com suas fontes, com quem está informando.
Nisso sem falar na velocidade do mundo de hoje né? Não dá pra gente chamar de jornalismo só o que sai no jornal, na TV, no rádio e em sites oficiais de notícias. Muitos devem ter visto que no Irã a moçada travou a imprensa, mas não adiantou porque a tecnologia e a vontade de informar da população foi além. Venho acompanhando pelo Twitter e alguns outros sites a evolução das coisas por lá. Impressionante o que a gente não sabe pela mídia. É muito legal saber que existem pessoas que apesar de serem "comuns" estão comprometidas com a comunicação, querem informar, estão cansadas que as coloquem num molde de gesso. E para mudar isso, chutam o pau da barraca e tacam sal no chá do Aiatolá, mesmo correndo o risco de tomar um balaço.
Aí alguém vai querer me convencer que não é legal criar um precedente para que qualquer um que possa e que tenha algo para informar, tenha esse direito. Realmente não consigo ver uma coisa ruim, filosoficamente falando. Sem entrar na questão de corporativismo, mercado, salários, etc e tal. Porque isso é muito mais uma briga política de sindicatos e associações que não server pra muita coisa além de fazer lobby pra eles mesmos. Quem é bom, quem é fodão sempre vai estar com seu lugar garantido, com diploma ou não, e não precisa de manifestação na esplanada, liderada por alguém em cima de um trio elétrico que mais lembra uma Micareta.
Enfim, acho que é isso. Não tô defendendo nada, não tô dizendo o que é certo ou o que errado, até porque eu não sei o que é certo nem na hora que vou fazer meu prato do almoço, mas só o que eu acho. Uma visão um tanto quanto particular, mas que faz algum sentido, pelo menos pra mim: alguém que gosta muito de informação e detesta hipocrisia..... e não tem diploma de jornalista.
Beijos...
Edu
Trilha sonora da madrugada:
Concha Buika, Adele, Beirut e Tom Waits....
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